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Introdução: Conceitos iniciais
Responda rápido: Qual das seguintes opções você escolheria?
Opção A: Ganhar US$ 2.400,00 com 100% de certeza
Opção B: Ter 33% de chances de ganhar US$ 2.500,00, 66% de chances de ganhar US$ 2.400,00 e 1% de chances de não ganhar nada.
Se você escolheu a opção A, você faz parte dos 82% da população que também escolheria essa alternativa.
Agora responda a esta segunda questão: Se você tivesse que escolher uma das seguintes alternativas, qual seria?
Opção A: Ter 80% de chances de PERDER US$ 4.000,00 e 20% de chances de não perder nada
Opção B: Ter 100% de chances de PERDER US$ 3.000,00
Se você escolheu a opção A, você faz parte dos 80% da população que também escolheriam esta opção.
Analisando a primeira pergunta, matematicamente falando, a opção B é a correta, por ser superior à opção A em 9 utiles. (Estatisticamente falando, o ganho médio da opção B seria US$ 9,00 acima do ganho da opção A)
Analisando a segunda pergunta, também em termos matemáticos, a opção B é a correta em relação à opção A, já que em termos estatísticos, a perda média da opção A seria US$ 200,00 superior à perda na opção B.
Pois bem, o que isso prova?
Isso prova que, dadas circunstâncias diferentes, ou até mesmo dada a forma de se apresentar as opções de escolha, os seres humanos tomam decisões diferentes, afetadas por fatores psicológicos, emocionais e intuitivos, mas não matematicamente racionais. É isso o que Daniel Kahneman e Amos Tversky demonstram na teoria das perspectivas (Prospect Theory).
No contexto apresentado, em uma situação entre o ganho certo e o risco (mesmo que baixo) em não obter ganho, a maioria das pessoas opta pela certeza, enquanto que numa situação de risco de perda, a maioria das pessoas opta pelo risco, mesmo que muito provável e com uma perda maior.
A teoria dos jogos parte do princípio de que se o jogador é racional, irá buscar maximizar seus ganhos, usando para isso sua habilidade de calcular as probabilidades entre as suas opções. Com base nestes princípios, o matemático John Forbes Nash Jr. ganhou o prêmio Nobel de economia em 1994, fundamentando a existência de pelo menos um ponto de equilíbrio em jogos de estratégias para múltiplos jogadores. Mas o que Nash não considerava, e que se provou em inúmeros testes, como o que foi demonstrado no início desse texto, é que em cenários reais, os seres humanos não se diferenciam tanto dos outros animais, já que carregam consigo um fator de irracionalidade, além de limitações em conseguir considerar todas as variáveis envolvidas no contexto do jogo.
Desta forma, concluímos que mercados de risco, como bolsa de valores, tendem a demonstrar comportamentos irracionais, provando que movimentos nos preços não podem ser previstos por suposições de que todos os participantes do mercado agirão de forma racional.
Em que isso importa ao investidor?
Isso nos leva a concluir que o investidor:
1-Toma decisões em momentos de ganhos diferentemente das decisões que toma nas perdas, podendo também mudar de estratégia de forma quase aleatória, dadas variáveis diversas.
2-Tem a clareza da sua visão estratégica afetada por fatores psicológicos.
3-Tenderá, portanto, a tomar atitudes que não serão ideais para a obtenção de lucro.
Com base nessas conclusões e na minha experiência, antes de entrar em artigos sobre estratégias de investimento e técnicas de análise, coloco então algumas orientações que acredito que todo investidor deva seguir antes de iniciar na renda variável:
1-Antes de aprender a investir racionalmente, aprenda a gastar racionalmente.
Sempre que apresento palestras sobre mercado de capitais, muitas pessoas dizem que gostariam de investir na bolsa de valores, mas que não possuem capital para isso. Todas, sem exceção, acreditam que isso se deve ao fato de ganharem pouco, o que faz com que nunca sobre o dinheiro necessário para investir.
Na quase totalidade dos casos, percebemos que o problema não está no quanto se ganha, e sim em como se gasta o que se ganha.
Um investidor racional precisa aprender a não praticar gastos irracionais. O que eu chamo de gastos irracionais? São gastos feitos sem planejamento, de forma imediatista, que levam ao endividamento de longo prazo e a descontrole das finanças. Alguns típicos gastos irracionais são: Financiamentos, consórcios, parcelamento de contas no cartão de crédito, contrarir empréstimos, entre outros.
Não é preciso ser um expert em matemática para que se demonstre que comprar algo a vista apresenta um custo total menor que comprar a mesma coisa por meio de financiamento, a juros de 3% ao mês. Simplesmente não faz sentido, mas ainda assim a maioria das pessoas adota esta prática como normal.
A maioria das pessoas não gosta de pensar em longo prazo. Elas precisam consumir aqui e agora, não importando as conseqüências. Sem a menor necessidade, trocam de automóvel, fazendo um financiamento de 5 anos. Ao final, pagaram por dois automóveis e ainda terão arcado com a depreciação, impostos, gasolina, manutenção...
Outro típico caso é o financiamento de imóvel: As pessoas alegam não possuírem o capital para comprar um imóvel a vista, então preferem financiar a “jogar dinheiro fora com aluguel”.
Mas nenhuma delas dedica algum tempo para calcular se realmente o aluguel é a pior opção. Talvez não seja, dependendo dos valores, prazos, etc. Prova maior disso está na quantidade de grandes empresas que preferem alugar imóveis a possuir os seus próprios. Essas empresas contam com uma equipe financeira capaz de fazer este tipo de análise e apontar as melhores estratégias.
Até mesmo as pessoas que possuem capital para comprar o imóvel a vista poderiam descobrir que é muito mais vantajoso aplicar este dinheiro e alugar um imóvel do que possuir um imóvel próprio. A falsa sensação de segurança em possuir a casa própria é um dos vários exemplos de atitudes instintivas, irracionais que prejudicam as finanças de boa parte da classe média. É claro que uma pessoa que conhece bem do ramo de imóveis pode fazer isso de forma racional, buscando uma valorização do mesmo como um investimento. Mas não é o que ocorre na maioria dos casos.
A regra é simples: Se não puder comprar a vista, não compre. Não invente um dinheiro que você não possui. Se puder comprar a vista, avalie se realmente precisa do que quer comprar e calcule as opções de pagamento de forma racional.
Conheço pessoas que poderiam ganhar o dobro, o triplo, e estariam sempre endividadas, simplesmente porque não conseguem a disciplina necessária para agir racionalmente quando o assunto é dinheiro. Estas pessoas só se tornarão investidores quando conseguirem vencer esta etapa de amadurecimento.
2-O investidor não deve depender do capital que está investindo
Diversas pessoas, investidores iniciantes que conseguem acumular um capital inicial, decidem arriscar todo este capital em um mesmo tipo de investimento, como bolsa de valores. Alguns arriscam o dinheiro do aluguel, ou até mesmo pegam empréstimos bancários a juros superiores a 2% a.m. e aplicam na bolsa de valores.
Esta abordagem é um fiasco estratégico, e está destinada ao fracasso, pois este tipo de investidor estará sempre em desvantagem em relação aos seus oponentes, podendo aceitar um risco muito pequeno, num prazo limitado, enquanto outros investidores estarão em condições financeiras e emocionais mais propícias ao lucro.
Esta segunda premissa é uma conseqüência da primeira: É necessário poupar primeiro para investir depois. E para se alcançar a total racionalidade na estratégia de investimento, não se pode depender da quantia investida para nenhuma outra função que não seja o investimento em si.
3-Maior o ganho, maior o risco/esforço
Acompanhei diversas pessoas que sofreram com a falência do Avestruz Master. Para quem não conhece, o Avestruz Mester era um investimento oferecido no Brasil no qual se comprava cotas correspondentes à criação de avestruz para depois revendê-las, 3 meses depois, com valorização de 30%. Não é preciso ser um gênio para saber que um investimento que oferece 30% em 3 meses (o que da mais de 100% ao ano), num país com inflação anual abaixo desta mesma rentabilidade, é simplesmente absurdo. Se fosse simples conseguir investimentos assim, todos seríamos milionários.
Os maiores investidores de mercados acionários do mundo conseguiram ao longo de suas vidas uma rentabilidade que dificilmente passava dos 2% ao mês.
Daí conclui-se que a rentabilidade, o risco e o esforço são variáveis correlacionadas num mesmo sistema. Aumenta-se uma e as outras tendem a aumentarem na mesma proporção.
Mesmo assim, pessoas acreditam em Avestruz Master, Herba Life e outros sistemas de pirâmide, compram bilhetes de loteria, vão aos bingos, fazem títulos de capitalização...
A psicologia nos ensina que pessoas cuja cultura está arraigada na filosofia de “levar vantagem” em situações diversas são as mais susceptíveis de serem ludibriadas por outras pessoas que também tenham essa mentalidade, justamente por serem de raciocínio imediatista, pouco confiável. A cultura predominante no Brasil ainda é a de “levar vantagem” em grande parte das pessoas, e isso faz com que o mercado seja rentável para os golpistas de todos os níveis.
Sendo assim, lembre-se dessa premissa essencial: O prêmio é proporcional ao risco e ao esforço. Devemos então maximizar nosso esforço na atuação do gerenciamento desse risco, buscando maximizar o lucro.
4-Mais importante que saber o que comprar e de quando comprar é saber como administrar o risco
A maioria das pessoas que começa a investir na bolsa de valores se preocupa em demasia com o timming. Timming significa saber o momento certo de comprar e o momento certo de vender.
Outras pessoas se preocupam em demasia com a avaliação das diferentes ações para determinar qual é a ideal.
Mas estudos demonstram que essas duas dimensões são menos importantes que a administração do risco, ou Money Management.
Vamos supor que eu comece uma série de operações na bolsa, com um capital inicial de R$ 10.000,00 e partindo do princípio que sempre irei arriscar todo o meu dinheiro em cada compra/venda. Suponhamos, também, que em 10 operações, 5 sejam lucrativas e outras 5 dêem prejuízo.
Teríamos, então:
Capital inicial: R$ 10.000 Operação 1 (lucro de 50%): 15.000,00 Operação 2 (lucro de 50%): 22.500,00 Operação 3 (lucro de 50%): 33.750,00 Operação 4 (lucro de 50%): 50.625,00 Operação 5 (lucro de 50%): 75.937,50 Operação 6 (prejuízo de 45%): 41.765,00 Operação 7 (prejuízo de 45%): 22.971,00 Operação 8 (prejuízo de 45%): 12.634,00 Operação 9 (prejuízo de 45%): 6.948,76 Operação 10 (prejuízo de 45%): 3.821,82
Na operação de número 9 já entraríamos em prejuízo, e na décima operação já teríamos menos da metade do capital inicial.
Agora suponhamos que, dadas as mesmas circunstâncias, eu decida arriscar apenas 11% do meu capital a cada operação:
Capital inicial: R$ 10.000 Operação 1 (lucro de 50%): 10.550,00 Operação 2 (lucro de 50%): 11.130,25 Operação 3 (lucro de 50%): 11.742,41 Operação 4 (lucro de 50%): 12.388,25 Operação 5 (lucro de 50%): 13.069,60 Operação 6 (prejuízo de 45%): 12.422,65 Operação 7 (prejuízo de 45%): 11.807,73 Operação 8 (prejuízo de 45%): 11.223,25 Operação 9 (prejuízo de 45%): 10.667,70 Operação 10 (prejuízo de 45%): 10.139,65
Podemos perceber que neste caso, considerando o mesmo número de acertos e erros e as mesmas rentabilidades, conseguimos encerrar as 10 operações com um lucro de 139,65, situação bem diferente do exemplo anterior.
Este exemplo é uma simples amostra do que podemos alcançar aplicando técnicas consistentes de gerenciamento de risco. Em futuros artigos, irei tratar de técnicas mais sofisticadas.
5-Plan your trade, trade your plan (Planeje suas operações, siga seu plano)
A maioria dos investidores de bolsa (pessoa física) efetua operações sem traçar uma estratégia consistente.
Utilizando a terminologia da teoria dos jogos novamente, podemos considerar que qualquer situação do nosso cotidiano onde interagimos com outras pessoas consiste em um jogo. Ao participar de uma reunião, sair com os amigos, participar de um evento esportivo, comprar uma mercadoria numa loja, operar na bolsa de valores, estamos, na verdade, participando de um jogo com regras e variáveis específicas.
Poucas pessoas têm de fato conhecimento dos jogos que estão disputando. Destas, poucas sabem claramente quais objetivos desejam alcançar (é importante lembrar que objetivos podem ser diferentes dentro de um mesmo jogo), e dessas, raras traçam uma estratégia racional e consistente para alcançar os objetivos desejados.
E esse fato se aplica à bolsa de valores: Se o investidor deseja conseguir resultados consistentes, precisa planejar criteriosamente a sua estratégia e segui-la, analisando sempre os resultados obtidos e aperfeiçoando esta estratégia com base nestes resultados (mas não mudando aleatoriamente de estratégia a cada operação).
Engana-se o investidor que acredita precisar descobrir a estratégia perfeita. Na verdade, aplicando boas práticas de Money Management, não é necessário sequer uma estratégia que acerte mais do que erre. Mas é imprescindível dominar essa estratégia e a disciplina necessária para segui-la.
Uma recomendação é anotar em uma planilha cada operação feita, os motivos, e os resultados esperados, além do limite de perda aceitável. Este diário é muito útil para o auto-aprendizado.