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Pequeno tratado sobre a consciência
O objetivo deste texto é refletir sobre o conceito da individualidade,
consciência e evolução.
Esta área está em constante atualização, então mesmo textos
previamente publicados podem sofrer alterações sem aviso, com novas idéias e
até mesmo mudanças de opinião que vez ou outra acontecem.
1-Sobre o conceito de indivíduo e consciência.
Gostaria de iniciar minhas teorias propondo a você um
exercício de imaginação:
Lembra da série “Star Trek”, onde as naves possuem um
mecanismo capaz de transportar qualquer matéria de um ponto a outro através de
um raio, que “lê” toda a estrutura molecular do viajante, desmonta esta
estrutura, e a monta no ponto de destino, quase instantaneamente?
Suponhamos então que fosse possível criar este aparelho, e
que os meios de transporte em poucos anos sofram uma revolução, sendo possível
então viajar na velocidade da luz de um ponto a outro do planeta, apenas
entrando nestas máquinas.
A pergunta é: Você viajaria numa máquina assim?
Antes que você responda que sim, vejamos algumas implicações
deste mecanismo:
Primeiramente, do ponto de vista da pessoa que sofre o
processo de transporte, não ocorreria nenhuma dor, ou mal estar. Em sua
percepção, ela seria instantaneamente deslocada de um ponto a outro, o que
seria uma forma segura, e bem confortável de transporte. Por outro lado, a
pessoa que entraria nesta máquina teria toda a sua estrutura molecular, cada
átomo, cada partícula, por menor que seja, lida e armazenada em forma de dados
digitais, e em seguida, suas moléculas seriam “desmontadas”, já que a
informação para “montá-las” novamente estaria segura. Neste momento, então,
esta informação seria enviada a outra máquina, que teria o papel de
interpretá-la e “montar” todos os átomos e outras partículas de forma
totalmente fiel aos dados coletados.
A pessoa que foi “montada” no ponto de destino terá todas as
características exatamente iguais à pessoa que foi “desmontada” no ponto de
origem, ou seja, é uma cópia fiel. Esta pessoa nunca perceberia que a sua
existência começou naquele minuto, já que toda a sua memória, que foi levada
junta no processo (considerando que seu cérebro também é idêntico ao cérebro do
organismo no ponto de origem) confirma a informação de que ela teve toda uma
história de vida.
Imagine então, a implicação deste processo: Você entraria em
uma máquina que varreria todas suas estruturas moleculares, químicas, enfim,
todos os dados necessários para criar uma cópia idêntica a você em todos os
aspectos, depois esta máquina espalharia seus átomos no espaço. Neste momento,
então, você deixa de existir, já que não existe mais um corpo, um cérebro, ou
coração, nada que o torne um ser vivente. Só então outra máquina estaria
montando uma cópia sua, que ao final do processo, juraria que é a pessoa
original, pois não teria a capacidade de perceber o que realmente aconteceu
durante o “transporte”.
De forma resumida, podemos dizer então que o viajante seria
morto, e uma cópia sua seria criada naquele momento.
Volto a perguntar: Você se disporia a sofrer este processo,
considerando que, ao final dele, continuará a existir um ser com a sua
identidade, os seus pensamentos, a sua história, suas emoções e
características, mas que não é feito das mesmas moléculas que você, pois essas
foram espalhadas no espaço?
Se você ainda insiste em responder de forma afirmativa,
então sinto se irei ofendê-lo, mas a menos que esteja disposto a mudar sua
visão de si mesmo e do universo a sua volta, a leitura deste texto será uma
perda de tempo para você.
Voltemos então para a nossa experiência de transporte:
Compreendemos então que uma máquina com essa capacidade
traria uma grande questão a ser discutida: O que compõe um ser humano?
Como se daria o processo de criação de uma cópia idêntica de
um ser humano? E o conceito de alma? . (não do ponto de vista espiritual,
porque esse seria desbancado no primeiro uso desta máquina, já que se é
possível copiar um ser humano e a sua alma, ela não é espiritual, e sim física)
O conceito de “eu” teria de ser revisto?
Vamos agora alterar um pouco nosso “experimento”, fazendo
com que a máquina de origem não “desmonte” mais a pessoa que será transportada.
Teremos então, como resultado do experimento, o indivíduo original ainda vivo,
e uma cópia dele no ponto de destino, também vivo e idêntico ao original.
Quem fica com a “alma” (a identidade original)? O primeiro,
o segundo ou os dois? Mais importante: Se passam a existir dois seres idênticos
a você, e você já aceitou que o primeiro seja destruído, então não deve haver
nenhum problema em pegarmos um revolver e darmos um tiro na cabeça do seu “eu”
original, já que a cópia estará lá, viva, assistindo a tudo, certo?
Agora você já começou a ponderar a situação com mais
cuidado, não é verdade?
Não lhe parece óbvio que, sendo possível matar o ser
original enquanto sua cópia assiste a toda a cena, significa que estes são
indivíduos diferentes?
Se for fisicamente possível (mas improvável com a nossa
tecnologia) criar uma cópia exata de um ser vivo, com exatamente a mesma
memória e pensamentos, isto prova então que o seu conceito de individualidade e
consciência tem que ser reformulado, pois ambos seriam indivíduos dotados de
todas as funções de um ser humano, mas um deles não foi criado de forma
“natural”. Além disso, o “eu” original e o “eu” copiado são pessoas diferentes!
A nossa consciência é um fio contínuo que quando apagado, não pode ser
substituído, nem mesmo por substitutos idênticos: Não é o ser original! A
grande questão aqui é o que importa mais para você: Ter alguém para perpetuar
seus pensamentos, mesmo que seja outra pessoa, ou estar vivo?
A discussão colocada até agora apenas ilustra como nós
humanos damos pouco valor à nossa existência. Nossa cultura sempre nos levou a
supervalorizar pontos irrelevantes, e a desprezar questões fundamentais da
nossa natureza. Aprendemos que perpetuar é procriar, então nos conformamos com
a morte como parte natural do processo.
NATURAL??? O que tem de natural em envelhecer e morrer?? É
um defeito de fabricação!
Mas voltando ao que foi dito até aqui, o que faz cada um de
nós possuirmos uma identidade única? O que nos impede de mudarmos totalmente
quem nós somos a cada minuto que passa? Onde, no nosso corpo, está a definição
de “eu” na sua forma mais granular?
Você provavelmente vai dizer que nossa consciência é
composta de nossas memórias, experiências, emoções, idéias, pensamentos... Vai
dizer que juntando tudo isso é que se define cada “eu”, cada consciência,
certo? Mas se na experiência acima conseguimos mostrar que dois indivíduos com
as exatas memórias, iguais, com as mesmas idéias, pensamentos, tudo idêntico,
ainda são indivíduos diferentes, com consciências diferentes, então a sua
explicação ficou incompleta!
Para saber onde está definida cada identidade ou cada
consciência, proponho um outro exercício de imaginação:
Vamos imaginar que uma pessoa seja submetida a uma cirurgia,
onde toda a área do cérebro responsável pela visão seja substituída por um
sistema eletrônico, que consiga exercer exatamente a mesma função da área
original.
Após esta cirurgia, a pessoa continuaria sendo exatamente a
mesma, com a mesma identidade e consciência. Sendo assim, não houve uma morte,
nem tampouco foi criado um novo indivíduo.
Suponhamos que seja feita nova cirurgia na mesma pessoa,
substituindo agora a área responsável pela audição por novo sistema eletrônico
que execute o mesmo papel da área retirada.
Continuamos com o mesmo indivíduo de antes, mesma
consciência. Mas se continuarmos a substituir cada área do cérebro por uma
equivalente, seja eletrônica ou orgânica, em algum momento passaremos a ter
apenas uma cópia. O original terá morrido! Aconteceria o mesmo que na
experiência do transporte citada acima: Mesmo que todos os dispositivos
eletrônicos instalados substituam o cérebro em tudo o que ele fazia, nas áreas
da fala, memória, raciocínio espacial e demais recursos, teremos apenas uma
cópia.
Mas em que ponto, em que parte especificamente do cérebro
nós retiramos o indivíduo e substituímos por uma máquina?
Vamos agora modificar essa experiência, misturando os
conceitos do tele-transporte.
Vamos pegar um indivíduo e substituir apenas um átomo ou uma
partícula (não pretendo aqui me desdobrar nas questões físicas sobre partículas
que compoem a matéria, quero apenas sugerir que vamos agora atuar no nível
atômico) do seu cérebro por outra, de iguais características. Novamente
ainda temos o ser humano original, a mesma consciência.
E assim vamos substituindo cada átomo do seu cérebro por
outro idêntico gradativamente... O que acontece?
Bom, sabemos que ao final do processo, o indivíduo estará
morto, e sua cópia existirá sem perceber o que aconteceu, mas... Em que momento
durante este processo ocorrerá a morte de uma consciência e o surgimento de
outra?
As conclusões que podemos tirar são:
1-Os indivíduos são compostos de matéria, mas a
individualidade ou consciência não pode ser copiada. Portanto:
2-Copiar conhecimento, memórias, formas de raciocínio e
demais características intelectuais não significa copiar indivíduos e
consciência
3-Copiar matéria também não significa copiar indivíduos e
consciência. Sendo assim:
4-O que define a consciência está em alguma região do
cérebro, mas não é apenas conhecimento, nem apenas matéria. O que define a
consciência é união de “software” e “hardware”, ou seja: União do conhecimento
e memórias adquiridas, mas nas mesmas células cerebrais onde sempre existiram.
Qualquer tentativa de separar este determinado “software” de
seu “hardware” significa morte. Seja a perda de memória, seja a substituição de
partes primárias do cérebro por outros elementos físicos, sejam eletrônicos ou
orgânicos, a conclusão é que isso eliminaria aquela existência original.
Nosso corpo substitui enorme quantidade de suas células
durante todo o tempo. Enquanto algumas morrem, novas nascem e substituem o
trabalho das antigas. Isso significaria morte constante se não fosse um
detalhe: Células cerebrais não se reproduzem, portanto, não se renovam. Por
outro lado, existe a substituição dos átomos, que ocorre mesmo em células que
não se reproduzem, o que nos leva a pensar que morremos gradativamente,
constantemente.
2- Sobre a "alma"
Como poderia o seu “Deus” planejar o universo, as leis da
física, as estruturas moleculares, as formas de vida, as almas nestas formas, e
desprezar a possibilidade de ser fisicamente possível criar uma cópia exata de
um ser vivo, mas não de sua alma? Como teria ele solucionado este paradoxo?
Não estou me propondo aqui a questionar a sua cultura e
crenças, nem dizer o que é certo ou errado, mas estou colocando fatos que
possam fundamentar os conceitos que virão: Somos feitos de matéria, complexas
estruturas físicas, reações químicas, fluidos em movimento, troca de energia
elétrica, e apenas isso. Com esses elementos (e apenas eles), se constrói um
ser humano.
Não se revolte, antes que eu continue: Não estou em momento
algum duvidando da capacidade dos homens de possuir sentimentos humanos como
amizade, tristeza, felicidade, mas apenas estou dizendo que estes
comportamentos não são feitos de mágica ou espiritualidade. Somos capazes de
realizar feitos admiráveis, quase milagrosos, mas conseguimos isso graças aos
recursos que nossos próprios corpos nos permitem, e não mais.
Estarei propondo no decorrer deste texto que nada nos faz
diferentes do universo a nossa volta. Somos feitos do mesmo material, estamos
sujeitos às mesmas regras, partilhamos da mesma realidade.
3-Sobre o conceito de vida, inteligência e evolução
O universo, como conhecemos, vem sofrendo modificações por
mais tempo do que somos capazes de compreender no nosso limitado período de
existência. Neste processo, surgiu um fenômeno que conhecemos por “vida”.
Hoje, temos o privilégio de existir em um planeta repleto de
espécies dotadas da “vida”. Algumas têm a capacidade de se movimentar, emitir
ruídos, enquanto outras apenas existem, quase imperceptíveis ao nosso
conhecimento.
Nós, humanos, diferentemente de outros animais, temos a
capacidade de compreender o quão fantástica é a nossa própria existência, de
perceber que existimos e que o evento da vida é praticamente um milagre
proporcionado pelo acaso. A questão é que, como seres únicos no nosso meio, nos
tornamos arrogantes, já que é simples justificarmos nossa superioridade perante
outras formas de vida. Nenhuma outra forma de vida vai argumentar contra isso!
Vamos admitir então que é muito fácil colocar o ser humano
como um indivíduo superior a todos os outros seres vivos no planeta. Como é
simples alimentar nossa soberba em relação às nossas “inúmeras vantagens”, já
que somos os únicos capazes de expressar nossa própria glória! Somos educados a
exaltar nossa soberba ainda cedo, na escola, quando aprendemos pelos nossos
professores que “os humanos são os únicos seres vivos dotados da capacidade de
raciocínio”. Essa frase soa mais absurda a cada vez que eu a vejo!
Quem disse que peixes, macacos, cachorros, gatos, baleias,
aranhas, baratas e outras formas de vida não possuem o dom do raciocínio? Como
podemos ignorar a capacidade de um cachorro de encontrar comida, superar
obstáculos, se defender do perigo, aprender truques, se apegar ao seu dono, e
dizer que ele é um simples mecanismo que reage a estímulos? Não reagimos todos
a estímulos durante todo o tempo? Os golfinhos e elefantes reconhecem sua
imagem no espelho quando a encontram! Isso é genialidade pura! Imagine a
inteligência necessária para reconhecer a própria imagem no espelho!
Como é fácil nos colocarmos fora de um grupo do qual fazemos
parte por natureza, dizendo que as regras normais não se aplicam a nós
mesmos...
É evidente que não vemos cachorros usando terno e gravata,
ministrando palestras sobre economia em cursos de pós-graduação, mas isso não
quer dizer que estes seres vivos não possuem capacidade alguma de raciocínio.
Tomar posse do termo “raciocínio” e adotá-lo apenas à forma humana de pensar
não é correto. Primeiro, porque entre exemplares da espécie humana é possível
identificar formas diferentes de raciocínio, não apenas uma, e segundo, porque
animais também possuem a sua forma de raciocinar, cada qual com suas
limitações, mas em pleno funcionamento.
Vamos supor que seja possível criar em laboratório, a partir
da engenharia genética, um ser vivo com capacidade de raciocínio tão limitada,
que seu cérebro se constitui de apenas um neurônio, cuja simplicidade seja tal
que a única função que pode desenvolver é a de responder com um sinal positivo
ao receber um sinal positivo, ou responder com um sinal negativo ao receber um
sinal negativo. 0 ou 1, se assim preferir.
É previsível que um ser assim não sobreviveria poucos
segundos no mundo repleto de outros seres infinitamente mais inteligentes e
adaptados. O ponto em questão, apesar disso, não é sua capacidade de
sobrevivência, e sim seu dom de raciocínio. Este ser poderia ser considerado o
mais estúpido do universo, porém vivo, e com uma limitada, mas existente,
capacidade de pensar!
Ora, por que não podemos dizer que um indivíduo capaz de
apenas duas reações em sua medíocre existência não está raciocinando? É
necessário entender que, devido às suas limitações, é impossível para ele
compreender a sua própria existência, muito menos a nossa capacidade de
compreensão das informações que recebemos, mas a sua forma limitada de
tratamento de informações é indiscutivelmente uma forma de interpretação dos
sinais à sua volta, e, portanto, uma forma de raciocínio.
O caminho lógico para definir e diferenciar as formas de
raciocínio, a meu modo de ver, é definir uma linha evolutiva, na qual todos os
seres capazes de reagir a estímulos do mundo a sua volta sejam classificados,
alguns mais à frente, outros menos, de forma que cada um tenha o seu lugar e
sua posição nesta seqüência. Se ampliarmos esta linha em maiores detalhes,
veremos que até mesmo indivíduos da mesma espécie poderão estar classificados
em pontos diferentes desta linha, por serem mais, ou menos capacitados às
funções de raciocínio.
Não estou mudando nenhum conceito já definido. Nós, humanos,
ainda somos os seres mais capacitados a várias formas de raciocínio do que
quaisquer seres vivos de que temos conhecimento, porém estamos agora
democraticamente colocando todos os seres que possuem capacidade de raciocinar
no mesmo plano de existência.
Pois bem, partindo desse princípio, o que muda na prática?
Muda drasticamente a capacidade de aceitação dos conceitos
que pretendo listar a seguir. Só é possível assimilar conceitos se estes não
perturbam a nossa ordem pré-estabelecida dos fatos, ou os nossos preconceitos.
Se agora aceitamos que somos animais, melhores sim, em
alguns aspectos, que outros animais, mas não únicos em capacidades
intelectuais, abrimos alguns horizontes.
Se hoje nos encontramos liderando uma escala de
inteligência, a qual é composta por milhões de seres diferentes, então passamos
a considerar a possibilidade de que um dia possivelmente não estejamos mais na
liderança desta escala. Seja pela evolução de algum outro animal ou de nossa
espécie, seja pela descoberta de algum outro ser vivo, seja pela extinção da
raça humana, enfim, está posição não é fixa.
4-Sobre o conceito de vida e vida artificial
Já que agora entendemos que não é necessário descartar o
fato de que até a reação a estímulos de uma bactéria é uma forma de raciocínio
elementar, e que a condição de liderança da capacidade de raciocínio humana é
temporária e passível de modificações, uma outra barreira a ser quebrada é a do
conceito da condição de “ser vivente”.
O que separa um ser vivo de uma máquina? Seria a capacidade
de reprodução? Ou talvez a capacidade de reação a estímulos? Ou seria a sua
composição fisiológica, baseada em química orgânica? (não me venha com alma,
ok? Já eliminamos esse conceito falho lá no início do texto)
Vamos analisar a questão mais profundamente: A capacidade de
reprodução só é necessária para a preservação da vida porque as formas de vida
que conhecemos padecem da mesma falha: Envelhecem e morrem. Se considerarmos um
ser que não envelhece, e não morre, qual seria a necessidade deste de se
reproduzir?
É claro que com a reprodução surge o aperfeiçoamento
genético e a multiplicação da espécie, mas se considerarmos que uma “máquina”
pode ser aperfeiçoada sem que novas gerações tenham que ser produzidas, e pode
ser fabricada em série, ela está muito acima da necessidade rudimentar da
reprodução das espécies orgânicas.
Bem, e quanto à capacidade de reação a estímulos,
computadores hoje já conseguem reconhecer voz, imagens, tomar decisões
elementares, algo comparável a animais mais primitivos. É evidente que mesmo
tendo uma capacidade de elaboração de conceitos muito limitada, os computadores
hoje desempenham funções extremamente semelhantes às dos seres vivos. Seja o
monitoramento de temperatura de um ambiente, ou detecção de incêndio, de
tempestades (os animais também o fazem, se defendem em ambientes que os colocam
em risco).
Aposto que nesse momento você irá dizer: “É claro que os
computadores fazem isso, mas só fazem porque os humanos os dizem para fazer!”.
Concordo! E isso os faz menos capazes? Será que para ser considerado um ser
vivo é um pré-requisito ter suas funcionalidades desenvolvidas em milhões de
anos de evolução? O fato de um “ser vivo” ter sido desenvolvido por outro, o
torna menos “vivo”? Se for assim, nenhum de nós pode ser considerado um ser
vivo, já que somos filhos de outros seres vivos.
Procure evitar argumentos irrelevantes, como “mas os
computadores são programados” ou “mas as máquinas não respiram” e coisas do
gênero. Afinal, e daí se as máquinas não respiram? Onde está escrito que um ser
vivo precisa respirar? Nós é que temos essa limitação, podemos morrer afogados,
as máquinas não!
Já deve ter ficado claro para você onde quero chegar: Por
que é tão necessário para nós humanos fazermos tanta distinção entre seres
vivos e máquinas? Por que ambos não podem ser analisados na mesma escala
evolutiva? Será que as diferenças do ponto de vista conceitual são tão grandes
entre ambos que não podemos sequer considerar que o homem é capaz de criar
seres com capacidades semelhantes aos seres vivos?
Para você, cristão, talvez seja um bom momento para lembrar
que “Deus” criou o homem à sua imagem e semelhança, e sendo assim, nós humanos
não podemos fazer o mesmo?
5- Sobre seleção natural e vida artificial
Agora que conseguimos colocar homens, animais e computadores
no mesmo plano, vamos tratar das modificações desta escala no decorrer do
tempo.
Imagine quantos milhões de anos foram necessários para que a
natureza conseguisse, em infinitas seqüências de pequenas modificações causadas
por fatores ao acaso, criar um ser humano como o conhecemos hoje!
Talvez seja mais simples, por exemplo, imaginar quanto tempo
levou a natureza para criar o primeiro ser vivo com olhos e capacidade de
visão. Ora, vamos comparar essa escala com a da tecnologia: Quanto tempo levou
o homem para criar o primeiro computador capaz de capturar, armazenar e tratar
imagens? É estupidamente claro como computadores evoluem a uma velocidade
astronomicamente maior a que qualquer ser vivo consegue evoluir, e existe um
motivo para isso: O ser humano não trabalha ao acaso. Suas criações não são
fruto de resultado quantitativo, um acerto para cada milhão de erros, no
decorrer de uma escala de tempo. Diferente da natureza, que se aperfeiçoa pelo
processo de seleção natural, as criações humanas são produzidas a partir da
análise dos fatores pertinentes, pensamento, imaginação, previsão, e por isso
têm uma eficiência evolutiva extremamente grande.
É como se enquanto a natureza estivesse jogando dados, e
tentando, inúmeras vezes, tirar o número 6, o homem pegasse o dado, e virasse o
lado com o número 6 para cima.
Nessa proporção, seria tão difícil deduzir que um dia, os
computadores serão tão capazes intelectualmente que os homens? Ora, ponha-se no
seu devido lugar! Quem você pensa que é para rir de uma possibilidade dessas?
Sabe qual a diferença entre nosso código genético e o de um macaco? Quase
nenhuma! Tente por um momento se livrar de séculos de arrogância cultivada pela
nossa cultura e abra por um minuto a sua mente.
Você já parou para pensar em quantas profissões foram
extintas pela tecnologia? Quantos profissionais se tornaram totalmente inúteis
na nossa sociedade por fazerem trabalhos que hoje computadores podem fazer
melhor, mais barato, mais rápido e sem erros? Pense por um momento na sua
profissão. Você tem certeza absoluta de que um computador um dia não poderá
desempenhá-la melhor que você?
Lembro-me quando empresas de ônibus brasileiras tiveram uma
batalha com seus empregados porque iam substituir os trocadores por catracas
eletrônicas. A decisão final acabou sendo a favor dos trocadores, e as catracas
eletrônicas foram banidas. Neste caso, a justiça teve que intervir no que eu
chamaria de um verdadeiro processo de seleção natural: Se uma catraca pode
desempenhar o mesmo papel, não precisa de um salário, não se alimenta, e nunca
se cansa, quem é mais adaptado para aquela função: ela ou o homem?
A justiça não impediu este processo, apenas o adiou. É
impossível deter a seleção natural. Seres mais adaptados sobrevivem,
predominam, mesmo que o processo seja retardado à força.
Tantas outras profissões passaram por isso, veja os
digitadores, por exemplo.
Aí você vai me dizer: “Ah, mas são profissões que não exigem
grandes capacidades intelectuais”. Concordo. Mas isso quer dizer então que
nunca teremos um médico robô? Sabia que algumas cirurgias só são feitas com
braços-robô, pois os braços humanos não têm a capacidade necessária para
fazê-las? Claro, são médicos humanos que controlam esses braços, por
enquanto...
Aguarde alguns anos, e discutimos de novo, quando
motoristas, secretárias, atendentes de call-centers, atores e uma série de
outros profissionais estiverem brigando na justiça para não ficarem sem
empregos. Veremos filmes totalmente produzidos com atores virtuais (estou
considerando aqui que os atuais "filmes" com computação gráfica ainda estão na
categoria dos desenhos, e não filmes). Músicos que só existem dentro de um
computador poderão desempenhar horas de gravação em estúdio sem se cansar e sem
cobrar nada pelo trabalho.
E o mais impressionante: Quanto mais a tecnologia evolui,
mais devagar o homem evolui ao acompanhá-la!
Acha que não? Então vejamos:
Se 200 anos atrás um homem tivesse um problema cardíaco
genético, o que aconteceria? Morreria. E assim, esse código genético defeituoso
seria eliminado, dando lugar a seres sem esse problema. E hoje? Hoje você faz
um transplante. Ele sobrevive, tem filhos, e eles vão ter o mesmo problema. A
tecnologia usa a lei da seleção natural de forma tão forte, que além de
permitir a evolução das máquinas em velocidade alucinante, impede a evolução
dos seres orgânicos! E no caso dos humanos, os torna gradativamente mais
dependentes da própria tecnologia... Fantástico, não? Pois é.
Aí você vai me dizer que a pesquisa genética vai resolver
esse problema, permitindo eliminar problemas genéticos e criar seres humanos
cada vez mais capazes, certo?
E esses seres vão conseguir fazer milhões de cálculos por
segundo? Vão conseguir levantar um carro com um braço? Vão estar livres da
necessidade de dormir ou descansar? Imagino que eles vão poder voar! É claro
que não! A pesquisa genética não irá tão longe. E mesmo que chegasse perto, o
resultado seria óbvio: Não seria humano!
E é aí, meu caro, que as máquinas vencem os homens... A raça
humana, pela lógica, está condenada a caducar e desaparecer.
O que eu ainda não sei dizer é como as máquinas verão o
mundo e os humanos.
Decidirão acabar com eles? Acho difícil. Elas não serão
estúpidas como nós sempre fomos. Não serão gananciosas nem terão crenças
filosóficas, espirituais ou religiosas (as causas da maioria das mortes e
guerras da história). Não terão raiva, nem medo. Não vão ter sadismo, nem
prazer. Provavelmente computarão algum tipo de "equilíbrio de Nash" para
decidir pela existência cooperativa entre seres.
Vão julgar as situações com lógica. Estarão muito acima
desses conceitos imbecis de bem e mal (nossa bela herança da filosofia grega,
como já dizia Nietzsche). Não vão envelhecer ou morrer, não terão orgulho, nem
a necessidade idiota que temos em preservar nossa vida acima de tudo.
Talvez ao final de tudo elas simplesmente decidam que não
existe lógica nenhuma em viver e se desliguem...
Ou talvez elas decidam que existe sempre algo novo para
aprender e pesquisar ou evoluir, o que poderia ser considerado um tom de poesia
em suas visões puramente lógicas.
Quem sabe?
Só sei com certeza que elas serão mais inteligentes, e que
terão uma visão do mundo muito mais lúcida e eficiente do que qualquer humano
jamais conseguirá ter, ou imaginar. Assim como uma ameba não compreende a
dimensão do raciocínio humano, nós estaremos muito limitados para compreender o
que se passa nas mentes interligadas desses futuros gênios.
E é por isso que eu invejo as máquinas.