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Filed under: General/News — mateus at 7:52 pm on Wednesday, September 27, 2006

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O cãofinhobú (ou o dilema de uma empresa que não sabe o que é)

Filed under: Investments,Philosophy — mateus at 11:52 am on Sunday, September 17, 2006

O cãofinhobú (ou o dilema de uma empresa que não sabe o que é)

Por: Mateus Padovani Velloso

 

 

Era uma vez um cientista que resolveu fazer um cachorro melhor. 

 

Ele estava cansado do seu cachorro porque ele era pequeno, só sabia fazer xixi no tapete, latir, correr atrás de comida e brincar com seu dono. 

 

Através de engenharia genética, ele fez um cachorro com uma bexiga 10 vezes maior que o normal, assim, ele não sentiria vontade de fazer xixi toda hora e daria tempo de levá-lo para passear 1 vez por semana apenas.  O problema é que o cachorro ficou pesado, então precisou também de patas mais fortes, um coração mais forte e assim também passou a comer mais. Mas tudo bem, afinal era parte do processo de evolução do cachorro. 

 

Aí ele pensou: Bom mesmo seria se eu pudesse brincar com o cachorro na água, seja uma piscina ou no mar… 

 

Então resolveu adaptar sua criação, colocando uma cauda de golfinho nele. 

 

Fantástico: Agora o seu novo cachorrinho, que já não era mais pequeno nem tampouco um… cachorro, era grande, forte, quase nunca fazia xixi e nadava como ninguém. Claro, ficou meio esquisito, e as pessoas na rua estranhavam, e ele já não corria como antes, mas… oras, isso fazia parte do progresso! 

 

Como o nosso cientista era um sujeito bastante visionário, pensou: Por que não fazê-lo voar também? Poderia jogar um disco com toda a sua força que ele simplesmente sairia voando e o pegaria, já que não é mais o corredor de antigamente. Então colocou duas enormes asas no corpo do cãofinho (mistura de cachorro com golfinho) e agora tinha um legítimo cãofinhobú (mistura de cão, golfinho e urubu). Só que os primeiros testes mostravam que ele não era muito aerodinâmico, o que forçou o cientista a trocar o focinho do animal por um bico de águia. 

 

Infelizmente o animal morreu de fome, já que era incapaz de roer ossos e comer carne como fazia antes, o que fez o cientista a pensar numa alternativa: além do bico, o animal teria uma boca no peito, com dentes, para poder mastigar comida e se manter alimentado. O que, alias, o novo animal fazia quase todo o tempo, já que as asas, o rabo de golfinho e o grande peso exigiam dele. 

 

Então o cientista percebeu que o animal já não brincava como antes, afinal, estava muito ocupado tendo que repor suas energias. Aliás, ele já mal andava, nadava muito mal (as asas atrapalhavam na água, e o lastro o fazia afundar rapidamente) e tinha um vôo muito desengonçado. Aliás, daquele tamanho todo e voando, quando o bicho resolvia fazer um cocozinho durante o vôo, era um estrago! Pior quando ele jogava o disco para o seu animal ir buscar: O cãofinhobú não sabia se era pra pegar o disco com o bico ou com a boca no peito, e acabava não pegando de jeito nenhum. Muitas vezes o bico e a boca no peito brigavam um com o outro e saiam machucados, deixando o cãofinhobú comendo mal durante semanas. 

 

De vez em quando alguém parava e perguntava: 

 

-Mas que diabos de bicho é esse? 

 

E o cientista respondia: 

 

-É um cãofinhobú 

 

E a pessoa respondia: 

 

Cãofinho…. o quê? 

 

E o cientista toda vez tinha que responder: 

 

-O nome é complexo pois é o resultado da fusão de um cão, ótimo corredor e amigo do homem, com um golfinho, animal inteligentíssimo e ótimo nadador e um urubu, um animal com grandes asas que voa muito bem. 

 

E as pessoas diziam: 

 

-Ah, que interessante… Já o meu é um cachorro. Ele corre, brinca, me trás o jornal e é meu melhor amigo. 

 

Enquanto isso, outras pessoas com cachorrinhos normais iam para o parque, jogavam seus discos e os seus cachorrinhos corriam como ninguém para agarrá-los e trazê-los de volta. E o cientista olhava aquilo e pensava: 

 

-Que cachorros idiotas, não percebem como estão atrasados em relação ao meu trabalho genial. 

 

O que ele não sabia é que as outras pessoas olhavam e pensavam: 

 

-Coitado desse bicho esquisito! Deve sofrer tanto! 

 

Daí o cientista pensou: Ele está muito pesado, muito lastro para carregar. Preciso tirar todo o peso inútil dele, lógico! Ele vai ficar perfeito! 

 

Tentou de tudo: Tirou os rins, o coração, o pulmão, o cérebro, os ossos… 

 

Mas que diabos, o bicho sempre morria! Que bicho incompetente! Não sabe se virar com o que tem, então precisa ser mais inteligente, ter mais autonomia para resolver seus problemas! 

 

O cientista chegou a pensar em vender esse animal, mas quando contava que o preço dele era US$ 1.000.000,00 os possíveis compradores achavam melhor comprar um cachorro, um golfinho e um urubu separadamente, pois pagariam muito menos e teriam animais muito bons no que faziam. 

 

Então o cientista decidiu que na verdade o bicho precisava de mais cérebros, já que o único que tinha só pensava em comer e descansar para repor as energias. Então colocou um cérebro em cada pata, um na cauda e mais um responsável só pelas asas, assim cada parte do corpo do bicho teria mais autonomia e não ocuparia o cérebro principal com problemas pequenos. Claro que eles teriam que obedecer a uma hierarquia: As ordens do cérebro principal é que ditavam as regras. 

 

Daí o cérebro principal falava: Vamos procurar comida ali naquela floresta! E os outros cérebros prontamente paravam todas as atividades e colocavam o corpo para se movimentar em direção à floresta. Só que os outros cérebros não sabiam direito se o cérebro principal tinha planejado fazer isso voando, andando ou nadando. Aliás, o cérebro principal nem planejou como fazer, afinal, a função dele era dizer o que fazer e não como. 

 

Então o cãofinhobú foi batendo asas, correndo com suas patas e abanando a cauda, de vez em quando capotando, de vez em quando voando, em direção à floresta. 

 

Mas no meio do caminho o cérebro principal viu o mar e pensou: Lá deve ter muito peixe! Melhor do que na floresta! E prontamente ordenou: 

 

-Mudança de planos! Vamos para o mar! 

 

As patas, as asas e o rabo se assustaram: 

 

-Ué? Não estávamos indo para a floresta? O que mudou? 

 

E o cérebro principal disse: 

 

-Eu analisei e percebi que temos mais chances de encontrar boa comida no mar! 

 

-Mas você tem certeza? – Perguntaram os outros cérebros 

 

-Claro que tenho! 

 

E assim, todos mudaram suas atividades para ir atrás da nova missão. 

 

O problema é que no meio do caminho, o cérebro principal avistou um galinheiro. Não teve dúvidas: 

 

-Um monte de galinhas suculentas esperando para serem comidas! Droga, mas se eu mandar todos mudarem de direção agora, vão ficar irritados e vão me questionar! Já sei! Conto só para as patas, afinal, só elas precisam saber disso. Assim, as asas e a cauda não vão me atrapalhar.  Atenção patas! Nova mudança, mas agora é certo: Nós vamos para o galinheiro! 

 

-Mas por que? – Perguntaram as patas. 

 

E o cérebro principal não querendo admitir que estava apenas trocando uma oportunidade por outra, disse: 

 

-Não contem para ninguém, mas é que a cauda não está lá na sua melhor performance, e vocês sabem, na água, as asas atrapalham… Então conto com vocês para me ajudarem a ir ao galinheiro. Vocês são os membros que vão salvar este corpo, conto com vocês! 

 

Apesar de cansadas, as patas obedeceram acreditando na visão do cérebro, e começaram a seguir na nova direção. Quando a cauda e as asas perceberam, perguntaram: 

 

-O que vocês estão fazendo?? Devíamos ir para a água! 

 

E as patas responderam: 

 

-O cérebro nos confiou uma missão importante, precisamos salvar o corpo, isso é tudo o que vocês podem saber no momento! 

 

Só que uma das patas achou aquilo errado e contou para as asas e para o rabo: 

 

-Olha, na verdade o que aconteceu foi que o cérebro mudou de idéia, e pediu para não contarmos para vocês para que vocês não atrapalhem. 

 

As asas e a cauda ficaram muito decepcionadas com o cérebro. Se sentiram rejeitadas, incompetentes, perderam sua motivação de continuar ajudando o corpo. 

 

Uma das asas se revoltou com a falta de confiança do cérebro e se sentiu pouco valorizada com o corpo, então decidiu reclamar com o cérebro. Por conseqüência, o cérebro ficou furioso e brigou com as patas por terem traído sua confiança. Para manter sua imagem ok, disse para a asa que na verdade tinha feito aquilo porque as patas estavam precisando de exercício. 

 

E assim o corpo foi, lentamente, até o galinheiro. Como as patas mal davam conta de andar, o cérebro ordenou que as asas e o rabo ajudassem. Obviamente, asas e cauda não foram feitas para andar, mas o cérebro disse que aquele era um corpo evoluído, e que ela teriam que se adaptar. 

 

E assim foram, as patas, as asas se arrastando no chão, perdendo penas, a cauda fazendo o possível, quando enfim chegaram ao galinheiro e descobriram que não conseguiriam entrar lá dentro porque ele era cercado de arame. 

 

Foi terrível. O corpo cansado, as patas, a asa e a cauda com o relacionamento desgastado e o cérebro irritado com tudo o que estava acontecendo. 

 

Aí uma asa sugeriu: Vamos procurar um buraco na cerca! 

 

Mas o cérebro, que estava muito ansioso, falou: Não, já perdemos tempo demais com essa incompetência de vocês! Vamos para a floresta que lá iremos encontrar comida! 

 

Sentimento de desânimo generalizado. 

 

Aquele corpo grande, desengonçado, morto de fome, sem tempo para dormir ou se recompor foi se arrastando para a floresta enquanto algumas pessoas viam assustadas aquele monstrengo de despedaçando pelo caminho, até que no último suspiro, ainda longe da floresta, desabava no chão. 

 

Nos últimos minutos de consciência o cérebro principal pensava: 

 

-Que corpo inútil, se eu tivesse um corpo mais eficiente, seria o melhor animal do mundo! 

 

As patas pensavam: 

 

-Que corpo pesado, se tivéssemos menos peso para carregar, um cérebro que não muda de idéia toda hora, e asas que nos carregassem mais, estaríamos tão bem 

 

As asas pensavam: 

 

-Droga, não fomos feitas para nos arrastar no chão, isso está nos destruindo! Por que não nos deixam ajudar a encontrar soluções da maneira que fazemos melhor? Também temos cérebro e podemos voar! 

 

E a cauda pensava: 

 

-O que diabos estou fazendo aqui nesse corpo? Nunca precisam de mim para nada… 

 

E assim, o bicho morreu, cercado de boas oportunidades de se alimentar. 

 

Exausto, desanimado e triste com tudo o que aconteceu, o cientista sentou-se no chão quando percebeu que seu velho cachorrinho (aquele do início da estória) havia lhe trazido um galho e o aguardava para brincar de ir buscar. 

 

 

Primeiro artigo publicado no Raptors e no Linha de Código

Filed under: General/News,Technology/Development — mateus at 10:33 pm on Wednesday, September 6, 2006

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